Sacerdote, profeta e rei: a vocação do homem leigo

Ao longo do mês de agosto a Igreja no Brasil propõe a todos os fiéis uma reflexão sobre a vocação. O Apostolado Bravus trouxe, a cada semana, um artigo no intuito de provocar um aprofundamento nesse tempo especial, principalmente colocando a figura do homem e sua relação com cada vocação. Na primeira semana, abordamos a vocação sacerdotal, na segunda a paternidade, na terceira o chamado ao celibato e neste artigo, último dessa série, refletiremos um pouco acerca da vocação leiga e a masculinidade.

Tenho uma confissão pessoal a fazer: durante muitos anos, por falta de maturidade e de formação, tinha uma visão de que a santidade se encontrava mais plenamente no sacerdócio ou mesmo no celibato consagrado.

O tempo, as experiências de vida e, principalmente, os ensinamentos da Igreja me auxiliaram a perceber o quão desafiador é o chamado à santidade comum, na vida leiga. É uma resposta pessoal à graça santificante que está disponível a todos os batizados. É essa percepção que norteia este texto e espero que auxilie você, caro leitor, caso compartilhe de uma visão semelhante a que possuí.

O batismo como consagração

Batismo

 

Muitos fiéis têm uma visão reducionista acerca do batismo. O fato do batismo de crianças ser um rito tão presente na nossa tradição faz com que, por vezes, se deixe de aprofundar sobre o mistério desse sacramento1.

A Exortação Apostólica Chistifideles Laici, parágrafo 10, faz a seguinte afirmação: “Não é um exagero dizer que toda a existência do fiel leigo tem por finalidade levá-lo a descobrir a radical novidade cristã que promana do Batismo, sacramento da fé, a fim de poder viver as suas exigências segundo a vocação que recebeu de Deus.”

O batismo é uma consagração, que significa tornar sagrado (latim consacrare), o que, de fato, é uma configuração total e plena com o sagrado, mais especificamente com o Cristo crucificado e glorioso. A natureza desse sacramento, em si, é uma convocação radical e profunda, chamado de Deus — e, ao mesmo tempo, graça — para que morramos e ressuscitemos, participando, como Corpo Místico, do mesmo mistério de Nosso Senhor.

Assim, a resposta à radicalidade que muitos almejam — e procuram fora de si — está exatamente em responder com generosidade ao chamado de Deus realizado no Batismo: “Eis o meu filho muito amado, em quem eu coloco minha confiança” (cf. Mt 17,4).

Mas como viver com plenitude a consagração do batismo em meio a tantos desafios que se nos apresentam a vida secular?

Essa resposta é demasiado complexa. No entanto, há três aspectos pouco abordados que podem oferecer um guia para que vivamos bem nossa consagração: pelo batismo, participamos do sacerdócio de Cristo, de sua missão profética e régia2, portanto, somos, em Cristo, sacerdotes, profetas e reis.

“O Concílio Vaticano II recordou-nos o mistério deste poder e o fato de que a missão de Cristo — Sacerdote, Profeta-Mestre, Rei — continua na Igreja. Todos, todo o Povo de Deus participa nesta tríplice missão3.

Nos próximos tópicos, aprofundaremos um pouco mais sobre cada uma dessas características.

Em Cristo, ser sacerdote

Para muitos, o sacerdócio é algo que somente é exercido pelos padres. No entanto, todo o povo de Deus, como Corpo Místico de Cristo, é chamado a exercer o sacerdócio comum. Mas em que sentido isso se realiza?

Para que se efetue uma oferta é necessário haver um sacerdote, um altar e uma vítima. Trazendo essas características para a realidade dos leigos, temos a oportunidade de contemplar a profundidade desse mistério.

O leigo é chamado a fazer uma constante oferta de si. Isso não é diferente nas outras vocações. No entanto, pelo fato de estar inserido no mundo, a vivência cristã se coloca com uma natureza particular, que não é superior, muito menos inferior, simplesmente própria.

Como é difícil preservar as virtudes cristãs e a convicção por Cristo em meio a preocupações que, por vezes, podem nos distrair da pátria celeste. Apartados da mística cristã, o mundo do trabalho, da família, da política, entre outros, nos tira o foco do Céu.  É, portanto, nessa realidade que o sacerdócio comum se apresenta, pois temos o desafio de consagrar a Deus o próprio mundo4 e isso se realiza na decisão cotidiana de, pela fé, ofertar cada ato de amor e sacrifício, realizando santamente cada tarefa que exercemos, seja no trabalho, na família ou nas responsabilidades perante a sociedade. E, desse modo, enxertados na videira verdadeira, enfrentamos a complexidade das realidades a que estamos sujeitos.

Insisto: na simplicidade do teu trabalho habitual, nos detalhes monótonos de cada dia, tens que descobrir o segredo — para tantos desconhecido — da grandeza e da novidade: o Amor” (São Josemaria Escrivá).

A chave para viver com plenitude o sacerdócio comum é contemplar o sobrenatural no cotidiano, nas coisas mais corriqueiras. Desse modo, o século se torna um grande altar, em que nos oferecemos a nós mesmos, como hóstias vivas, santas, agradáveis a Deus (cfr. Roma 12,1)5 e também consagramos cada realidade e fato. Assim, portanto, mergulharemos constantemente no mistério da Santa Missa, não mais como expectadores, mas faremos dessa espiritualidade o centro de nossa vida interior.

Em Cristo, ser profeta

Ser profeta não é fazer previsões sobre o futuro. A profecia nasce de uma convicção plena daquilo em que se crê. A vida do batizado, portanto, se transfigura, a partir do mistério batismal, e se torna luz de Cristo em meio às realidades em que está inserido.

No entanto, quando não frequentamos os sacramentos deixamos de ser luzeiros em meio às trevas e mergulhamos na escuridão da dúvida, do pecado e da indiferença. Não é incomum observar homens sem força e vigor.

Essa letargia nasce da negação do chamado inicial a ser profeta e, portanto, na abstenção de ser, com violência e radicalidade, ser outro Cristo no mundo de hoje.

Os leigos são “chamados a fazer brilhar a novidade e a força do Evangelho na sua vida quotidiana, familiar e social, e a manifestar, com paciência e coragem, nas contradições da época presente, a sua esperança na glória também por meio das estruturas da vida secular”6.

Nossa missão de leigos consiste em revelar ao mundo, por meio de nosso testemunho concreto, palavras e ações, o sentido sobrenatural da vida, o objetivo final de cada homem, que é viver a comunhão plena com Deus.

Se fordes aquilo que devereis ser, tocareis fogo no mundo inteiro!” (Santa Catarina de Sena).

É esse o desafio que deve nos mover: cada homem e mulher neste mundo precisa ter um encontro com Cristo e o único Evangelho a que muitos terão acesso é a nossa vida, nossas atitudes cotidianas e nosso testemunho, na maioria das vezes, silencioso nas palavras, mas eloquente nos atos. Enquanto permanecemos acovardados, há muitos mergulhados nas trevas do erro e da ignorância, ansiando uma vida convicta e íntegra que seja seta que aponta para  o Cristo.

Em Cristo, ser rei

Cristo é o Rei do Universo. Isso significa que, além dos poderes temporais, das lógicas das relações que são estabelecidas na sociedade, somos cidadãos e súditos desse Rei, portanto temos a missão de propagar os valores desse reino e defendê-los com a nossa própria vida, com virilidade e firmeza.

Em tempos de redes sociais e frequentes ataques a cristãos, muitos defendem uma cruzada. No entanto, a provocação que gostaria de lançar aqui é a seguinte: até que ponto o reino de Cristo é soberano sem seu coração? O pecado não tem te escravizado e se tornado seu senhor? Diante dessas questões, a cruzada mais urgente é a batalha sangrenta que devemos travar para devolver o trono do nosso coração ao Rei a quem realmente ansiamos por servir: Jesus Cristo.

Reordenando o interior, com e pela graça, teremos condições de emanar na sociedade os valores do Reino de Amor, ordenando “as coisas criadas para o verdadeiro bem do homem”7.

Lançai as redes!

Conheço muitos que, como eu, anseiam uma vida cristã mais profunda e radical. Apesar de procurarmos, a resposta não está fora de nós. O chamado de Deus é pessoal e a resposta também.

A consagração batismal é um desafio fascinante que deve a cada dia nos provocar e levar à convicção de que as lutas para vivê-lo com profundidade são um caminho seguro para alcançar a santidade, chamado universal.

O desafio está posto: lançai as redes! Seja, em Cristo, sacerdote profeta e rei!

Bravus, pela hombridade!

  1. Não pretendo aqui questionar o batismo de crianças, o Catecismo da Igreja Católica fornece explicações claras a respeito. Além disso, caso queira se aprofundar no tema, há um vídeo do Padre Paulo Ricardo que orienta sobre esse ponto.
  2. Catecismo da Igreja Católica, 1.267
  3. Exortação Apostólica Chistifideles Laici, 14
  4. Constituição Dogmática Lumen Gentium, 35
  5. Constituição Dogmática Lumen Gentium, 10
  6. Exortação Apostólica Chistifideles Laici, 14
  7. Exortação Apostólica Chistifideles Laici, 14

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