O que faz de uma família santa?

Pintura família santa - The Holy Family With The Little Bird - Bartolome Esteban Murillo (1650)
The Holy Family With The Little Bird - Bartolome Esteban Murillo (1650)

Por Peter Kwasniewski
Originalmente publicado em New Liturgical Movement
Tradução livre por Daniel Pereira Volpato
Com a devida permissão do autor

Se o objetivo do cristão enquanto indivíduo é tornar-se um santo, o objetivo de um casal cristão é tornar-se santos juntos, um com a ajuda do outro, e o objetivo da família cristã é lutar para ser uma família santa, em imitação do modelo de Jesus, Maria e José. Assim, convém a nós que pensemos cuidadosamente sobre como definir a santidade familiar.

Para fazê-lo, precisamos identificar as causas da santidade familiar, a fim de que não sejamos arbitrários a respeito dos efeitos que deveríamos estar procurando ou priorizando. Alguém poderia, afinal, inclinar-se nesta ou naquela direção por não estar considerando as causas-raiz. É como definir um homem como risível, capaz de usar ferramentas, linguístico, social e religioso, sem dizer que ele é racional, o que é a raiz de todas estas coisas.

O ensino do Magistério autêntico é de grande ajuda para nós, porque nos mostra repetidamente a primazia da oração, da vida sacramental, e da Sagrada Eucaristia para a santidade de todos os cristãos, sejam eles solteiros, casados, religiosos ou clérigos.

Contudo, a Liturgia é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força. [..] [E] pela renovação da aliança do Senhor com os homens na Eucaristia, e aquece os fiéis na caridade urgente de Cristo. Da Liturgia, pois, em especial da Eucaristia, corre sobre nós, como de sua fonte, a graça, e por meio dela conseguem os homens com total eficácia a santificação em Cristo e a glorificação de Deus, a que se ordenam, como a seu fim, todas as outras obras da Igreja.1

Pela participação no sacrifício eucarístico de Cristo, fonte e centro de toda a vida cristã, [os fiéis] oferecem a Deus a vítima divina e a si mesmos juntamente com ela.2

Confirmando essa doutrina com suas vidas, todos os santos priorizaram oração sobre a ação, vida interior sobre o apostolado exterior, a Sagrada Eucaristia sobre qualquer outra obra de devoção ou de caridade. A esse respeito, eles estão simplesmente seguindo a deixa de Nosso Senhor: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (Jo XV, 4-5). Numa era preocupada com ativismo, engajamento e “resultados” não há verdade tão frequentemente negligenciada ou mesmo negada como essa, para a qual o remédio perfeito era (e ainda é) o livro de Dom Chautard, A Alma do Apostolado.

Não é surpresa, portanto, que o Magistério saliente o vínculo íntimo entre o sacramento do santo matrimônio, a sagrada liturgia, o Santíssimo Sacramento e uma família santa:

O sacramento do matrimónio [..] é a fonte própria e o meio original de santificação para os cônjuges. [..]
O dom de Jesus Cristo não se esgota na celebração do matrimônio, mas acompanha os cônjuges ao longo de toda a existência. [..]
E como do sacramento derivam para os cônjuges o dom e a obrigação de viver no quotidiano a santificação recebida, assim do mesmo sacramento dimanam a graça e o empenho moral de transformar toda a sua vida num contínuo «sacrifício espiritual».3

O «belo amor» aprende-se sobretudo rezando. A oração, de fato, comporta sempre, para usar uma expressão de S. Paulo, uma espécie de interior ocultação com Cristo em Deus: «A vossa vida está escondida com Cristo em Deus» (Col 3, 3).4

O matrimônio cristão, como todos os sacramentos que «estão ordenados à santificação dos homens, à edificação do Corpo de Cristo, e enfim, a prestar culto a Deus», é em si mesmo um ato litúrgico de louvor a Deus em Jesus Cristo e na Igreja.5

Esta [a Eucaristia] corrobora de forma inexaurível a unidade e o amor indissolúveis de cada matrimônio cristão. Neste, em virtude do sacramento, o vínculo conjugal está intrinsecamente ligado com a união eucarística entre Cristo esposo e a Igreja esposa (Ef 5, 31-32). O consentimento recíproco, que o marido e a esposa trocam entre si em Cristo constituindo-os em comunidade de vida e de amor, tem também uma dimensão eucarística; com efeito, na teologia paulina, o amor esponsal é sinal sacramental do amor de Cristo pela sua Igreja, um amor que tem o seu ponto culminante na cruz, expressão das suas « núpcias » com a humanidade e, ao mesmo tempo, origem e centro da Eucaristia.6

Esta “comunidade de vida e amor” se alarga exteriormente em obras de caridade (incluindo as obras espirituais e corporais de misericórdia), começando com seus próprios filhos e irradiando para sua paróquia, cidade e a ampla sociedade, conforme a ordem própria da caridade. Outrossim, tudo o que fazemos como cristãos flui de e conduz de volta ao sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo, do qual a Santa Missa é a re-apresentação sobrenatural e da qual a Sagrada Eucaristia é o sinal supremo e realidade mística. Somos peregrinos que vivem do e para o Pão da Vida, até contemplarmos Seu rosto divino e humana na visão beatífica.

Estamos entrando em tempos sombrios, em que a fidelidade ao ensino integral da Escritura, o testemunho da Tradição e a plenitude do Magistério da Igreja serão recebidas com incompreensão, incredulidade, zombaria, ostracismo, punições e, eventualmente, total perseguição. Precisamos fazer nosso melhor para não perdermos de vista esses marcos oficiais, por meio dos quais podemos caminhar confiantes, com a graça de Deus, ao longo do caminho da santidade — como homens e mulheres, maridos e esposas, pais e filhos, sacerdotes e religiosos. Tampouco podemos aceitar substitutos, diluições ou subterfúgios. Cristo e Sua Igreja têm falado claramente sobre quem somos e o que devemos fazer, se quisermos permanecer na verdade de Cristo e viver a verdade no amor.

* * *

E você, bravo leitor, como tem vivido ou espera viver a santidade em tua família?

  1. (Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, 10)
  2. (Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, 11)
  3. (S. João Paulo II, Familiaris Consortio, 56)
  4. (S. João Paulo II, Carta às Famílias, 20)
  5. (S. João Paulo II, Familiaris Consortio, 56)
  6. (Bento XVI, Sacramentum Caritatis, 27)

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