A bravura das pequenas coisas: magnanimidade para todos

Bravura das pequenas coisas
Sendo bravo nas pequenas coisas encontramos o segredo da magnanimidade

Fazei tudo por Amor. – Assim não há coisas pequenas: tudo é grande. – A perseverança nas pequenas coisas, por Amor, é heroísmo.” (São Josemaria Escrivá)1

Bravo leitor, lembra agora do teu tempo de mocidade; ou, se você ainda for moço, pensa no que vive hoje: neste desejo de transformar o mundo, nesse heroísmo que torna tudo possível, na certeza de ter o mundo a nossos pés e de que todos os nossos sonhos — é questão de tempo! — se realizarão.

É um belo ideal, provavelmente responsável pelo que você é hoje ou virá a ser muito em breve.

Entretanto, preciso ser sincero contigo: poucos homens realmente farão ações tão grandiosas ao mundo como um todo, que o impactarão ou o transformarão profundamente. O que será de praticamente todos nós é o que pretendo discutir aqui.

Somos uma geração sobre a qual se depositou grande esperança. Filhos, netos ou bisnetos do pós-guerra, de um tempo que prometia paz e prosperidade duradouras. “O futuro da nação”, “a geração que mudará o mundo”, foi como nos educaram e para o que tentaram nos preparar.

Mas este tempo não veio. O mundo continua igual; provavelmente pior, se pensarmos que, para além da sempre existente e difícil condição social de muitos, temos agora terríveis revoluções culturais se avizinhando, com promessas de profundas transformações negativas. Ademais, diminuiu o influxo da verdadeira caridade e benevolência, que serviam de escudo contra essas revoluções artificiais impostas contra os homens de bem.

Isso, contudo, não nos deve abalar. É bem provável que, de fato, não realizaremos ações grandiosas aos olhos do mundo. Todavia, isto não significa que nossas ações não terão importância.

Todos nós podemos agir magnanimamente e influenciar profundamente e positivamente o ambiente ao nosso redor por meio da bravura das pequenas coisas. Se não temos à disposição matéria para exercer grandes feitos, temos uma imensidão de pequenas coisas a nosso alcance, atos modestos que nos exigem coragem e tenacidade, seja um pequeno sacrifício, seja um breve momento de fortaleza ou mesmo a paciência para com aqueles que dependem de nós.

“Hoje, como ontem, do cristão espera-se heroísmo. Heroísmo em grandes contendas, se for preciso. Heroísmo — e será o normal — nas pequenas pendências de cada dia. Quando se luta continuamente, com Amor e deste modo que parece insignificante, o Senhor está sempre ao lado de seus filhos, como pastor amoroso” (São Josemaria Escrivá)2

Veja o que o Papa Francisco nos diz sobre as pequenas coisas e seu efeito transformador:

[..] Quando o Senhor nos convida a ser santos, não nos chama para algo pesado, triste… Ao contrário! É o convite a compartilhar a sua alegria, a viver e a oferecer com júbilo cada momento da nossa vida, levando-o a tornar-se ao mesmo tempo um dom de amor pelas pessoas que estão ao nosso lado. Se entendermos isto, tudo mudará, adquirindo um significado novo, bonito, um significado a começar pelas pequenas coisas de cada dia. Um exemplo. Uma senhora vai ao mercado para fazer as compras, encontra uma vizinha, começam a falar e então chegam as bisbilhotices, e a senhora diz: «Não, não falarei mal de ninguém!». Este é um passo rumo à santidade, ajuda-nos a ser santos! Depois, em casa, o filho pede para te falar das suas fantasias: «Oh, estou muito cansado, hoje trabalhei tanto…». «Mas acomoda-te e ouve o teu filho que precisa disto!». Acomoda-te e ouve-o com paciência: é um passo rumo à santidade. [..] Então, vou pelo caminho, vejo um pobre, um necessitado, paro, faço-lhe uma pergunta, dou-lhe algo: é um passo rumo à santidade! São pequenas coisas, mas muitos pequenos passos para a santidade. Cada passo rumo à santidade fará de nós pessoas melhores, livres do egoísmo e do fechamento em nós mesmos, abertos aos irmãos e às suas necessidades.3

Ao contrário das grandiosas ações que comentamos acima, geralmente orientadas aos outros, estas pequenas coisas são destinadas aos nossos mais íntimos: esposa, filhos, familiares, amigos. Por isso mesmo nos exigem bravura e heroísmo, pois temos esta bizarra tendência em sermos mais cordiais e amáveis com os desconhecidos. Com aqueles com os quais convivemos diariamente, esta espécie de máscara não se sustenta, e revelamos nossa verdadeira face: acomodada, preguiçosa, egoísta etc.

Neste sentido, é interessante recordarmos alguns pensamentos de Santa Teresa do Menino Jesus, a “santa das pequenas coisas”:

“Eu vi por experiência que, quando não sinto nada, quando sou incapaz de orar e de praticar a virtude, então é o momento de procurar pequenas ocasiões, ninharias que agradam a Jesus mais do que o domínio do mundo e até do que o martírio suportado generosamente. Por exemplo, um sorriso, uma palavra amável quando tinha vontade de calar-me ou de pôr cara de aborrecimento etc.”4

“Vede que pensar coisas belas e santas, fazer livros, escrever vidas de santos, não tem valor algum em comparação com a simples ação de responder imediatamente quando vos batem à porta.”5

“Bem vedes, minha Madre, que sou uma alma muito pequena que só pode oferecer a Deus coisas muito pequenas. E ainda acontece muitas vezes que deixo escapar alguns destes pequenos sacrifícios, que tanta paz dão à alma. Mas não desanimo por isso; resigno-me a ter um pouco menos de paz e procuro estar mais alerta em outra ocasião.”6

“Jesus não olha tanto para a grandeza das obras, nem sequer para sua dificuldade, mas para o amor com que se fazem.”7

Note-se que não devemos medir a importância de um ato pela sua suposta grandeza. Verdadeiramente, os grandes atos são aquelas pequenas coisas feitas com amor e para o benefício do outro e a maior glória de Deus.

Exame das pequenas coisas

Podemos terminar dividindo estas pequenas bravuras diárias — bem como todas as nossas ações ao longo do dia — em três grupos: pensamentos, palavras e obras, segundo a ótica de uma tradicional confissão pública integrante da Liturgia cristã. É importante que cada um faça seu próprio exame de consciência, contudo, ofereço alguns exemplos para servirem de inspiração:

  • Pensamentos. Penso primeiramente em mim ou naqueles que dependem de mim?
  • Palavras. Sei controlar minha boca nos ímpetos de raiva e explosão? Digo palavras capazes de adoçar a vida dos que vivem ao meu redor? Ou, pelo contrário, com minhas palavras mal pensadas consigo estragar o dia de todo mundo? Manifesto diariamente à minha esposa e filhos o quanto os amo?
  • Obras. Faço somente o que me agrada? Ou demonstro meu amor por meio dos pequenos gestos que mais me custam? Ofereço-me para ajudar naqueles tediosos serviços domésticos?  Procuro passar despercebido, ou saio gritando aos quatro cantos sempre que faço algo de bom?

Essas pequenas coisas nos permitem distinguir os que se esforçam dos que se acomodam, os altruístas dos egoístas, em suma, os que verdadeiramente amam dos que se amam a si mesmos.

E você, bravo leitor? Conte-nos como tem vivido as pequenas coisas e quais as maiores dificuldades em vivê-las com amor.

 

  1. São Josemaria Escrivá. Caminho, 813
  2. São Josemaria Escrivá. É Cristo que passa, n. 82
  3. Papa Francisco. Audiência Geral de 19 de Novembro de 2014
  4. Santa Teresa do Menino Jesus. A “pequena via” para Deus: textos de Santa Teresa do Menino Jesus, p. 36
  5. Henri Ghéon. Teresa de Lisieux, p. 114 apud Santa Teresa do Menino Jesus. Op. cit., p. 36
  6. Santa Teresa do Menino Jesus. Op. cit., p. 35
  7. Ibid., p. 38

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