Oh, mundo! São José será tua pedra de tropeço (Parte I)

São José ultrapasssa todos os outros santos

Quem será o administrador fiel e prudente que o Senhor colocará a frente de seus servos para distribuir a ração e o trigo no momento oportuno?

Por Diego Amaya Vasquez, Chile*

Texto original em espanhol
Tradução por Bravus.

A importância de São José

Porque se fala tão pouco sobre São José nos dias de hoje? Por que as trevas pesadas e escuras recaíram sobre essa santa figura? A resposta é clara: Por que estamos diante de uma sociedade que rechaça, categoricamente, qualquer traço de masculinidade, virilidade e hombridade e, certamente, São José é o garante e custódio de todas essas características, ou seja, desta substância objetiva do ser masculino na Igreja. Somos testemunhas, muitas vezes mudas e como possuídas por um estado de ataraxia, de como na nossa própria Igreja se infiltrou um espírito de excessiva suavidade em muitos âmbitos: na doutrina, na liturgia, na formação, opinião pública etc.  Ao querer sepultar a figura de São José, o resultado é o enterrar de todas as virtudes que Deus depositou em sua pessoa. Esse processo não é arbitrário, é uma prática sistemática de querer eliminar também da Igreja esses traços de antiga piedade, já que alguns modernistas postulam que tal espírito cristão tendia exageradamente ao rigorismo e à falta de “sensibilidade”. Claramente a figura de São José nos interpela fortemente e é, ainda mais em nossos tempos atuais, uma verdadeira pedra de tropeço para aqueles cristãos que, à sua maneira, buscam tornar mais brandas as exigências que Cristo fez em seu tempo e que estão para sempre gravadas nos Santos Evangelhos. É justamente neste ponto que a bravura do cristão deve levantar-se com resiliência diante das tempestades do erro.

São JoséÉ bastante comum escutarmos “eu sou mariano”, mas nunca se escuta “eu sou josefino”. As novenas a este santo são raras e a meditação de suas dores têm desaparecido. O mesmo aconteceu com os 30 dias de São José, as ladainhas ao Glorioso Patriarca, as orações para pedir boa morte e tantas outras orações tradicionais que parecem nunca haver existido.

No entanto, esse fenômeno ocorrido com este santo é muito mais grave do que pode parecer, não somente pelos nocivos efeitos práticos que podem ocasionar ou que já se produziram, mas também porque alterar essa ordem na piedade modifica também um ponto essencial, já que se substitui um ponto de ancoragem comum e tão importante, que foi desejado pelo próprio Cristo: a família. Com essa atitude, de silenciar completamente São José, de algum modo se rompe com um mandamento divino. Qual? Separar o que Deus uniu. Como é isso? Deus uniu inseparavelmente em Cristo, em seu eterno Plano de Salvação, as figuras de Santa Maria, virgem e mãe de Deus, e São José, casto e verdadeiro pai de Jesus.  Cada vez que contemplamos a economia da salvação e colocamos nossa atenção somente na figura de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Maria Santíssima, sem levar em consideração a figura de São José, estamos cerceando esse mesmo plano divino: Deus uniu, indefectivelmente, essa “trindade terrena”, que conhecemos como Sagrada Família de Nazaré, e consagrou São José para ser cabeça dessa família. São José não é um simples personagem supérfluo na História Sagrada, mas sim o homem que Deus escolher para ser o pai de seu próprio Filho feito homem e o esposo de sua flor mais bela e perfeita, a Theotokos.

Essa afirmação tão categórica e clara já perfumava a alma de Santa Teresinha do Menino Jesus: “Minha devoção a São José, desde minha infância, se confundia com meu amor à Santíssima Virgem” (História de uma alma, cap. 16).  Não se pode ser devoto de Maria sem ser devoto também de São José: “Portanto, não separe o homem o que Deus uniu” (Mc 10,9). Foi o mesmo Deus que determinou que José, como esposo de Maria e verdadeiro pai de Jesus, participasse igualmente deste desígnio de comunicar a Vida e a Salvação aos homens. A própria Igreja, há muitos séculos, revestiu  a São José com um tipo de devoção especial, chamada “proto-dulia”, ou seja, que entre as devoções aos santos, São José possui o primeiro lugar em nossa devoção, depois de Maria.

A fonte da alta dignidade de São José é, claramente, sua intimidade com o Verbo Encarnado, que supera a de qualquer outro homem: em síntese, sua paternidade sobre o Filho de Deus o distingue de qualquer outro varão na história humana. Canta a liturgia que São José, em Cristo, alcançou maior intimidade com a fonte da graça, mais que qualquer outro homem em toda a História da Salvação, isto é, que não há nada mais sublime que se possa humanamente se pensar para um homem que não foi dado a São José:

Teve, enfim, todas as coisas
que se podem considerar boas;
e é de Maria esposo e,
de Deus, pai na terra.
(Hino da Liturgia das Horas na Solenidade de São José, edição chilena: “Escuchen qué cosa y cosa”)

Entre outros tantos títulos de São José, ele é chamado  de Patriarca, em comparação com todos aqueles patriarcas do Antigo Testamento por meio dos quais foi prometida a salvação de todas as nações. São José, no entanto, é superior a todos eles, já que, no Pai Nutrício de Jesus essas promessas foram cumpridas, não somente isso, senão que A Promessa foi colocada em suas mãos, sob sua custódia e proteção.
São José

Um crescimento na devoção a São José

Alguns poderiam responder que o esquecimento de José é produto de uma impiedade moderna que se espalha como o odor da chuva ou como consequência de sua efêmera e diáfana participação nos evangelhos. Contudo, em meu modo de ver, há muito mais que isso.

Antes de apresentar as possíveis causas da damnatio memoriae aplicada a São José, gostaria de recorrer de maneira sucinta ao roteiro histórico de São José.

Um dos pontos que devemos levar em conta é que, no missal aprovado por João XXIII, em 1962, São José foi incluído no Cânon da Missa, dando a conhecer, desse modo, o protagonismo que, pouco a pouco, a Igreja foi reconhecendo. E sob o pontificado de Gregório XV, concretamente em 1621, se declarou que em 19 de março fosse celebrada festa em honra a São José. Posteriormente, em 1870, o Beato Pio IX, tendo em conta as dificuldades em que se encontrava a Igreja por causa do liberalismo, o declarou Patrono da Igreja Universal.

Eis aqui um excerto oficial do texto do decreto da proclamação:

“E agora, nestes tempos tristíssimos em que a Igreja, atacada de todos os lados pelos inimigos, é de tal maneira oprimida pelos mais graves males, a tal ponto que homens ímpios pensam ter finalmente as portas do Inferno prevalecido sobre ela, é que os Veneráveis e Excelentíssimos Bispos de todo o mundo católico dirigiram ao Sumo Pontífice as suas súplicas e as dos fiéis por eles guiados, solicitando que se dignasse constituir São José como Patrono da Igreja Católica. Tendo depois no Sacro Concílio Ecumênico do Vaticano insistentemente renovado as suas solicitações e desejos, o Santíssimo Senhor Nosso Papa Pio IX, consternado pela recentíssima e funesta situação das coisas, para confiar a si mesmo e os fiéis ao potentíssimo patrocínio do Santo Patriarca José […].”
(Decreto de Pio IX com o qual proclama São José como Patrono da Igreja Universal, em 8 de dezembro de 1870.)

O liberalismo atacava fortemente o ocidente, e essa ideologia não somente proclamava os homens livres e iguais, mas também ressaltava sua autonomia, chegando, inclusive, a descartar o jugo suave da Lei Divina como norma suprema: era o povo que, sentando-se no trono divino, se rebelava contra seu Criador. Para o liberalismo não existia uma religião verdadeira, visto que se relegava a fé a um âmbito somente da consciência e, a Igreja, pelo mesmo motivo, também deveria desaparecer da vida pública e política. Como resultado desse pensamento, a sociedade se seculariza e muitos professam o ateísmo e o indiferentismo, além de se fomentar um naturalismo religioso. Alguns, tendo F. Lamennais como líder, desejavam reconciliar o pensamento liberal com a Igreja e seus ensinamentos, mas, por fim, provocaram mais efeitos danosos que positivos, ao sacrificar o mais próprio da identidade cristã em favor dessa falsa combinação. Para Lamennais, isso significou o abandono do sacerdócio e da Igreja.

Pio IX continuava sofrendo os ataques de um liberalismo que já havia arrancado os estados pontifícios da Igreja e que teria confinado o Sumo Pontífice como prisioneiro voluntário em uma Roma tomada pelos soldados de Victor Manuel II. O Papa, como um filho, cheio de temor e nervosismo, decide buscar refúgio na proteção dos braços daquele que é o pai de Jesus e também o seu pai: São José. Pio IX confessou haver recebido mais de quinhentas cartas para proclamar o Glorioso Patriarca como Patrono da Igreja e, durante o Concílio Vaticano I, esses pedidos se intensificaram ainda mais. Assim, em 8 de dezembro de 1870, Solenidade da Imaculada Conceição, foi publicado o Decreto “Quemadmodum Deus”, por meio do qual São José era proclamado Patrono da Igreja Universal. Para assinalar ainda mais a importância desse ato, o Papa quis que este evento se realizasse, de modo simultâneo, em todas as basílicas mais importantes de Roma, durante a celebração da Missa da Imaculada Conceição, deixando assim marcado para sempre o inquebrantável laço entre Cristo, a Santíssima Virgem Maria e o Glorioso Patriarca São José.

Duas décadas antes, já dizia Pio IX em sua breve Inclytus Patriarcha Joseph:

“O ilustre Patriarca, o bem-aventurado José, foi escolhido por Deus, preferido a qualquer outro santo, para que fosse, na terra, o castíssimo e verdadeiro esposo da Imaculada Virgem Maria, e o pai putativo de Seu Filho único. Com o intuito de permitir a José que cumprisse perfeitamente uma responsabilidade tão sublime, Deus o cumulou de favores absolutamente singulares e os multiplicou abundantemente. Por isso, é justo que a Igreja Católica, agora que José está coroado de glória e honra no céu, o ofereça magníficas manifestações de culto e que o venere com uma íntima e afetuosa devoção.”
(Pio IX. Inclytus Patriarcha Joseph, de 10 de dezembro de 1847)

Posteriormente, no final do século XIX e início do século XX, a Igreja enfrenta alguns inimigos que se transformaram, em meio ao turbilhão de tantos movimentos sociais, políticos e econômicos. Era um campo de batalha entre a Igreja, o marxismo e o anarquismo, que propunham novos modelos sociais anticristãos.

Em meio a este clima de violência anticristã e de profundas mudanças sociais é que o Papa Leão XIII se atreve a escrever a primeira encíclica dedicada inteiramente ao Pai Nutrício de Jesus, que foi editada sob o título de “Quamquam pluries”, na qual escreve:

“A Sagrada Família, que José governou com autoridade de pai, era o berço da Igreja nascente. A Virgem Santíssima, de fato, enquanto Mãe de Jesus, é também mãe de todos os cristãos [..] E Jesus é, de alguma maneira, como o primogênito dos cristãos, que por adoção e pela redenção lhe são irmãos.

“Disto deriva que São José considera como confiada a Ele próprio a multidão dos cristãos que formam a Igreja, ou seja, a inumerável família dispersa pelo mundo, sobre a qual Ele, como esposo de Maria e pai putativo de Jesus, tem uma autoridade semelhante a de um pai. É, portanto, justo e digno de São José, que assim como ele guardou no seu tempo a família de Nazaré, também agora guarde e defenda com seu patrocínio a Igreja de Deus.”
(Enciclica “Quamquam pluries”, Papa Leão XIII
)

Também na arte e nas representações plásticas se produziu certa evolução da figura josefina. Durante os primeiros séculos, a arte sempre o representou em sarcófagos e ícones como parte de um conjunto, seja no conjunto da Sagrada Família, seja segurando o Menino Jesus. Somente após o século XVII que será representado de maneira individual, exaltando mais propriamente sua figura mística. À medida que sua pessoa foi tomando protagonismo na Igreja, sua imagem foi rejuvenescendo, passando de ser representado como um débil ancião na gruta de Belém, ao homem jovem e forte, com aproximadamente 40 anos, representado por El Greco no final do séc. XVI. Foi como uma metamorfose, desde a débil figura dos inícios ao forte e vigoroso “Custódio do Redentor” que a Igreja necessitou durante tantos séculos.

 

Continua…

* Diego é licenciado em educação, com especialização em religião e moral católica. Estudante de teologia na Pontificia Universidad Católica de Valparaíso, colabora nas cátedras de moral filosófica e direito canônico. Também assessora grupos ligados ao rito tridentino.

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