A pureza viriliza o caráter – Parte I: Plano natural e sobrenatural

pureza do homem viriliza o caráter

“A pureza limpidíssima de toda a vida de João torna-o forte diante da Cruz. — Os outros Apóstolos fogem do Gólgota; ele, com a Mãe de Cristo, fica. — Não esqueças que a pureza fortalece, viriliza o caráter.”1

Das muitas virtudes jogadas para escanteio pelo mundo moderno, a pureza é certamente uma das mais notórias. Enquanto as mulheres historicamente sempre guardaram-na mais — hoje, infelizmente, talvez não possamos mais dizer o mesmo —, é certo que ela nunca esteve muito em conta entre os homens. Como veremos, contudo, no decorrer deste artigo de duas partes, a pureza do homem é fundamental: um homem que cresce em pureza também cresce em virilidade.

Em sentido amplo e genérico, pode-se entender a pureza como a prática do bem moral. É o que Nosso Senhor nos diz, quando corrige certa interpretação judaica vétero-testamentária, erroneamente atrelada ao exterior e ao material:

“Não é aquilo que entra pela boca que mancha o homem, mas aquilo que sai dele. […] Ao contrário, aquilo que sai da boca provém do coração, e é isso o que mancha o homem. Porque é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias. Eis o que mancha o homem. Comer, porém, sem ter lavado as mãos, isso não mancha o homem.” (Mt 15, 11.18-20)

Em contrapartida, em sentido específico, nos âmbitos corporal e sexual, podemos definir a pureza como “a virtude que nos faz respeitar a ordem estabelecida por Deus no uso do prazer que acompanha a propagação da vida2. É neste sentido que trataremos a pureza aqui.

É extremamente comum enxergar a pureza como um acúmulo de proibições e negações (“não veja isso”, “não pense nisso”, “não faça isso”, …). Tal visão, contudo, é deveras simplista. A virtude da pureza é eminentemente positiva, uma afirmação do Amor que se manifesta em dois planos, o natural e o sobrenatural.

A pureza no plano natural

No plano natural, a pureza é a afirmação do homem cujo espírito domina suas potências inferiores.

“Entre todos os seres animados, o homem é o único que pode gloriar-se de ter recebido de Deus uma lei: animal dotado de razão, capaz de compreender e de discernir, ele regulará o seu procedimento dispondo da sua liberdade e da sua razão, na submissão Àquele que tudo lhe submeteu”3

O homem é uma criatura única no plano da Criação. Nem puramente animal, como os demais seres animados que habitam nosso planeta, nem puramente espiritual, como os seres angelicais. É justamente por nossas potências espirituais nos tornarem superiores aos outros animais que nosso espírito deve submeter os instintos animais. Entregar-se aos instintos é, como afirma C. S. Lewis, arruinar a própria vida:

“A submissão a todos os nossos desejos obviamente leva à impotência, à doença, à inveja, à mentira, à dissimulação, a tudo, enfim, que é contrário à saúde, ao bom humor e à franqueza. Para qualquer tipo de felicidade, mesmo neste mundo, é necessário comedimento. Logo, a afirmação de que qualquer desejo é saudável e razoável só porque é forte não significa coisa alguma. Todo homem são e civilizado deve ter um conjunto de princípios pelos quais rejeita alguns desejos e admite outros. Um homem se baseia em princípios cristãos, outro se baseia em princípios de higiene, e outro, ainda, em princípios sociológicos. O verdadeiro conflito não é o do cristianismo contra a ‘natureza’, mas dos princípios cristãos contra outros princípios de controle da ‘natureza’. A ‘natureza’ (no sentido de um desejo natural) terá de ser controlada de um jeito ou de outro, a não ser que queiramos arruinar nossa vida. ”4

Há algumas décadas, porém, advoga-se que o homem deve explorar seus instintos, que isso o tornaria mais livre, mais feliz. Não fazê-lo seria “viver reprimido”. Em nosso país isto virou até mesmo tema de música, cujos trechos que considero mais relevantes seguem abaixo:

Não segure muito teus instintos / Porque isso não é natural
[..]

Vá em frente, entra numa boa / Porque a vida é uma festa
Não controle, não domine, não modere / Tudo isso faz muito mal
Deixe que a mente se relaxe / Faça o que mandar o coração

Não se reprima / Não se reprima
(Menudo. “Não se reprima”)

Há uma diferença entre a “repressão” em seu significado técnico, conforme o ensina a psicologia, e o que o senso comum entende por “repressão”, conforme nos esclarece o autor das Crônicas de Nárnia:

“[…] as pessoas muitas vezes não entendem o que a psicologia quer dizer com ‘repressão’. Ela nos ensinou que o sexo ‘reprimido’ é perigoso. Nesse caso, porém, ‘reprimido’ é um termo técnico: não significa ‘suprimido’ no sentido de ‘negado’ ou ‘proibido’. Um desejo ou pensamento reprimido é o que foi jogado para o fundo do subconsciente (em geral na infância) e só pode surgir na mente de forma disfarçada ou irreconhecível. Ao paciente, a sexualidade reprimida não parece nem mesmo ter relação com a sexualidade. Quando um adolescente ou um adulto se empenha em resistir a um desejo consciente, não está lidando com a repressão nem corre o risco de a estar criando. Pelo contrário, os que tentam seriamente ser castos têm mais consciência de sua sexualidade e logo passam a conhecê-la melhor que qualquer outra pessoa. Acabam conhecendo seus desejos como Wellington conhecia Napoleão ou Sherlock Holmes conhecia Moriarty; como um apanhador de ratos conhece ratos ou como um encanador conhece um cano com vazamento. A virtude — mesmo o esforço para alcançá-la — traz a luz; a libertinagem traz apenas brumas.”5

O que à primeira vista parece liberdade, trata-se no fundo de libertinagem, cujo fruto mais amargo é a escravidão. Um homem que se deixa dominar pelos instintos animais é um escravo de seus vícios, não é mais senhor de si, já não é livre.

“Segundo as palavras da primeira Carta aos Coríntios, o homem em que a concupiscência prevalece sobre a espiritualidade — isto é ‘o corpo animal’ (1 Cor 15, 44) — é condenado à morte; deve porém ressurgir um ‘corpo espiritual’, o homem em que o espírito obterá uma justa supremacia sobre o corpo, a espiritualidade sobre a sensualidade.”6

A pureza no plano sobrenatural

No plano sobrenatural, a pureza é a afirmação do homem que participa do próprio amor de Deus, o único capaz de saciar plenamente seu coração. Porém, se permite que o amor próprio e as satisfações egoístas invadam seu coração, ele não se saciará, e crescerá um desejo cada vez maior por prazeres mundanos, dentre os quais, com particular força, o prazer sexual. Disto percebemos que a pureza é pilar do mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas.

“Esta é a vontade de Deus: A vossa santificação; que eviteis a impureza; que cada um de vós saiba possuir o seu corpo em santidade e honra, sem se deixar levar pelas paixões desregradas, como fazem os gentios, que não conhecem a Deus” (I Tess 4, 3-5)

“O cristianismo é praticamente a única entre as grandes religiões que aprova por completo o corpo — que acredita que a matéria é uma coisa boa, que o próprio Deus tomou a forma humana e que um novo tipo de corpo nos será dado no Paraíso e será parte essencial da nossa felicidade, beleza e energia. O cristianismo exaltou o casamento mais que qualquer outra religião; e quase todos os grandes poemas de amor foram compostos por cristãos. Se alguém disser que o sexo, em si, é algo mau, o cristianismo refuta essa afirmativa instantaneamente.”7

Na próxima, e última parte, trataremos da pureza do homem e de sua vivência viril.

E você, bravo leitor, como enxerga a pureza nos planos natural e sobrenatural?

Bravus, pela hombridade.

  1. S. Josemaria Escrivá, Caminho, n. 144
  2. Ricardo Sada, Alfonso Monroy. Curso de Teologia Moral. Rei dos Livros, 1989.
  3. Tertuliano. Adversos Marcionem apud Catecismo da Igreja Católica, n. 1951
  4. C. S. Lewis. Cristianismo Puro e Simples, Livro III, Cap. 5
  5. Id.
  6. Papa S. João Paulo II. Audiência Geral de 10 de Fevereiro de 1982.
  7. C. S. Lewis. op. cit., loc. cit.

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1 Resultado

  1. 5 de julho de 2017

    […] primeira parte deste artigo vivemos a pureza nos planos natural e sobrenatural. Nesta parte final veremos como […]

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