Como a pornografia transforma homens em meninos

Por Matt Fradd
Originalmente publicado em The Catholic Gentleman
Tradução livre por Rodrigo Nascimento

A pornografia é frequentemente classificada, juntamente com outros produtos relacionados a sexo, como um entretenimento “adulto”— algo para um público “maduro”. Se essa descrição significasse somente “não indicado para crianças”, haveria pouca contestação.

Dito isso, seria tolice concluir que se trata de um argumento a favor da pornografia direcionada a adultos. Heroína e racismo não são também “indicados para crianças”, mas isso não significa, ipso facto, que tais coisas são apropriadas para aqueles que têm mais de dezoito anos.

A indústria pornográfica defende (o que é repetido como uma espécie de mantra) que a pornografia é sofisticada, um entretenimento maduro usufruído por adultos responsáveis. Pornografia, segundo o que almejam que você internalize, é o que os verdadeiros homens apreciam—como, por exemplo, um bom cigarro, um uísque ou uma obra de arte.

Como o infame Ronn Jeremy costuma dizer: “A pornografia é sexo consensual entre adultos que consentem, para ser observado por adultos que consentem.”

O que se quer dizer por maturidade?

Isso nos leva a questionar: O que exatamente constitui um comportamento “adulto” ou “maduro”? Diz respeito apenas à idade do participante? Ou é sobre algo mais? Traçar definições é complicado porque atualmente são utilizados como sinônimos pela mídia erótica—que é exatamente o tema que estamos tentando abordar.

De um lado, utilizamos o termo “maduro” quando estamos falando sobre um estado final ou desejado. Chamamos de “vinho maduro” a bebida que passou por um longo processo de fermentação e que está apropriada para consumo. Também utilizamos o termo “maduro” para denominar aquele que “cresceu” em seus comportamentos ou atitudes—que não demonstra a impetuosidade e ingenuidade da juventude. Fica claro o intuito de os donos dos clubes de stripers chamarem esses estabelecimentos de “clubes de homens”: eles estão insinuando que as atividades que ocorrem ali fazem parte do comportamento que um homem deve ter.

Fonte: Neurociências em benefício da Educação

Pergunte a qualquer neurocientista como é um cérebro humano “maduro”  e ele falará sobre a região no cérebro conhecida como córtex pré-frontal. Ele é localizado atrás do osso frontal e tem a função de ser o comando central do cérebro. É responsável por nossa força de vontade, regulando nosso comportamento, e nos fazendo tomar decisões baseadas na sabedoria e em princípios. Quando as emoções, impulsos e desejos irrompem da região central do cérebro, o lobo no córtex pré-frontal está lá para fazer o “controle executivo” sobre ele. Próximo aos 25 anos, essa região do cérebro alcança maturidade. Isso significa que nosso pensamento se torna mais sofisticado e nós temos capacidade de regular nossas emoções com mais facilidade.

Neurociência

Afinal de contas, por que trazer a neurociência para a questão? Porque pesquisas fascinantes estão observando o impacto da exposição à pornografia nessa região do cérebro.

O cérebro é projetado de modo que responda ao estímulo sexual. Ondas de dopamina são liberadas durante a relação sexual—também quando nos expomos à pornografia—proporcionando ao indivíduo um senso de foco mais aguçado e uma consciência do desejo sexual. A dopamina auxilia na fixação de memórias no cérebro, então, da próxima vez em que o homem estiver disposto, o cérebro busca a recordação de como experimentar novamente o mesmo prazer: seja com a esposa amada ou acessando um site na internet.

Todavia, os cientistas estão atualmente constatando que a exposição contínua à pornografia faz com que o cérebro viva sob um estímulo não natural—algo com o que, literalmente, ele não está projetado para lidar—e o cérebro eventualmente fica fatigado.

O anatomista e professor de fisiologia, Gary Wilson, salienta que é a mesma condição experimentada quando se consome drogas de maneira abusiva: o cérebro se torna dessensibilizado. Cada vez uma quantidade maior de drogas é necessária para atingir o mesmo estado de prazer, e a espiral descendente começa. Wilson afirma que isso provoca alterações significativas no cérebro—tanto para usuários de drogas quanto para usuários de pornografia.

Uma dessas alterações está na erosão do córtex pré frontal—aquele essencial para o “controle executivo”. Dr. Donald Hilton, um neurocirurgião, compartilha o que os cientistas estão identificando em sua pesquisa:

“Um estudo sobre a adicção à cocaína, publicado em 2002, revelou perda de volume, ou encolhimento, em diversas áreas do cérebro, particularmente nas áreas de controle frontais. Um estudo de 2004 mostra resultados muito similares para o uso de metanfetamina. Mas… nós já sabemos que as drogas prejudicam o cérebro, então esses estudos realmente não nos surpreendem.

Considere, todavia, um vício natural, como excesso de peso que leva à obesidade. Você pode ficar surpreso ao descobrir que um estudo publicado em 2006 revelou encolhimento no lobo frontal em pessoas obesas muito similar aos encontrados nos estudos sobre o uso de cocaína e metanfetamina.

E um estudo publicado em 2007, analisando pessoas que possuem um severo vício sexual, indica quase que os mesmos resultados das análises sobre vícios em cocaína, metanfetamina e obesidade.

Desse modo, temos quatro estudos, dois com drogas e dois com base em estudos de vícios naturais, todos realizados em diferentes instituições acadêmicas e por diferentes grupos de pesquisadores, e, além disso, publicados num intervalo de tempo de cinco anos em quatro periódicos científicos. E todos esses estudos mostram que os vícios físicos afetam o lobo frontal do cérebro.”

Quando o lobo frontal do cérebro fica enfraquecido, quando o desejo por pornografia o atinge, a força de vontade está enfraquecida demais para regular o querer. Os neurocientistas chamam esse problema de hipofrontalidade, quando a pessoa, aos poucos, vai perdendo o controle dos impulsos e o domínio de suas paixões.

A questão é a seguinte: a parte do cérebro cujo desenvolvimento sadio caracteriza justamente a vida adulta e a maturidade é exatamente o que é deteriorada quando somos expostos à pornografia. É como se o cérebro regredisse, tornando-se cada vez mais infantil. Entretenimento “adulto” está, na verdade, nos fazendo ser mais imaturos.

A tentativa de fazer com que os desvios sexuais estejam relacionados a atitudes de homens, são, no meu ponto de vista, nada mais do que uma tentativa para que homens fracos justifiquem seu comportamento vergonhoso. Desde a primeira edição da Playboy, em 1953, a estratégia de Hugh Hefner teve dois focos: aos distribuidores ele iria fornecer a revista como pornografia leve, mas aos consumidores iria apresentar o produto como uma revista de estilo de vida masculino para os homens modernos em ascensão. Isso iniciou a mudança cultural na imagem do público consumidor de pornografia:

Quando os editores direcionavam o leitor, as imagens eram apenas uma das diversas maneiras de atração, ao invés da atração. O leitor não era convidado, prioritariamente, a se masturbar mas, sobretudo, para adentrar o mundo da elite cultural, a discutir filosofia e gastronomia associados à classe média alta… Os marcos da vida da classe alta, que apareciam casualmente como acréscimos (cocktails, aperitivos e Picasso), eram deliberadamente alocados para garantir à revista uma aura de respeitabilidade de classe média-alta.

Tão certo quanto o fato de que a Playboy estaria fadada ao fim sem as mulheres despidas em suas páginas, do mesmo modo teria fracassado sem os artigos e propagandas que projetavam nos homens americanos de classe média-alta o passe para adentrar o mundo da pornografia.

Revolucionários incompreendidos?

Por que as “lojas de adultos” possuem entradas escondidas? É por que seus clientes são revolucionários incompreendidos que estão planejando a queda de uma sociedade sexualmente reprimida? Ou é muito mais simples que isso? É por que sabem que seu comportamento é errado?

Quando se consideram as opções, que comportamento parece corresponder a um homem “maduro” e crescido: fazer amor a vida toda com uma única mulher, de carne e osso, a quem você serve e estima, apesar de suas falhas e defeitos (e apesar dos seus); ou rastejar pela noite à procura na internet, de mulher em mulher, de um vídeo curto a outro, por horas a fio, satisfazendo-se a si mesmo enquanto se conecta a pixels em uma tela?

Não… consentir no consumo (ou, até mesmo, admiração) de materiais pornográficos e outras formas de sexo comercial não são características de um adulto, delatam a mais absurda imaturidade.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta