O combate da oração

[A oração] Supõe sempre um esforço. Os grandes orantes da Antiga Aliança antes de Cristo, como também a Mãe de Deus e os santos com Ele, nos ensinam: a oração é um combate” (CIC, 2725).

A debilidade gerada pelo caráter mal formado produz, inevitavelmente, uma fraqueza na vontade. Não raro, grande parte de nossas resoluções não se sustentam ao sinal da primeira dificuldade: engolimos em seco o fracasso e a frustração, esperando que, adiante, aprimorando — enganadamente, por nós próprios — as nossas fraquezas, avançaremos até a linha de chegada. Se essa inconsistência é corriqueira nas coisas mais cotidianas, é certo que não será diferente nas mais elevadas, como na busca pela santidade.  

Como resultado do pecado original, queremos “ser como deuses”. Caímos continuamente na astúcia da serpente, já que esperamos vencer nossos vícios e más inclinações contando apenas com nossa força e dedicação, ansiando ser reconhecidos pelo mérito. Não à toa, Adão se escondeu de Deus: pela vergonha de si, percebendo, enfim, que tudo o que recebeu de Deus não era devido à sua capacidade, mas, sim, fruto da graça. Teve desnudada diante de si sua miséria, sua incapacidade, confrontando-se com a grandeza daquele que o amava continuamente e que, por amor, permite-lhe desfrutar de sua vida bem-aventurada. A ferida aberta pelo primeiro homem é a que arde, ainda, em cada um de nós: optamos por viver uma vida à parte de Deus, o que reflete diretamente na nossa vida de oração (ou na falta dela).

Rezar para vencer a si próprio

Nesse campo de batalha, que é a oração, a primeira luta a ser vencida é contra nós mesmos. Ajoelhar-se, colocar-se na presença de Deus, é um ato que põe em ordem a hierarquia da nossa vida: somos totalmente dependentes de alguém que é superior, que tem o total controle sobre o tempo e sobre a nossa vida; que, não fosse sua graça, não seria acrescentado um segundo sequer à nossa existência, por mais esforço que façamos, mérito ou bens que conquistemos. Ele é o Deus que dá e que tira (1Sm 2,6). E como é difícil para nós, homens, reconhecer-mo-nos totalmente sujeitos à Divina Vontade e não autores exclusivos de nossos sucessos (e fracassos). Tendemos a recorrer a Deus nas necessidades e furtar-lhe o mérito pelas conquistas, outorgando-as a nós mesmos. Só nos tornaremos verdadeiros homens, em maturidade e virilidade, quando colocarmos o verdadeiro Senhor no trono de nossa vida, quando, como os cavaleiros, prostrar-mo-nos diante do Rei dos Reis, submetendo-nos à Sua Santa Vontade.

Se queres desarraigar de tua alma todos os vícios e plantar em seu lugar todas as virtudes, sê homem de oração” (São Boaventura).

Não é possível vencer alguns vícios ou más inclinações, a não ser pelo cultivo de uma vida de oração. Apartando-se da intimidade com Nosso Senhor Jesus Cristo, restam-nos somente as nossas próprias forças, que são bastante limitadas, apesar de sermos deveras resistentes em reconhecer esse fato. Somente nosso empenho, aliado à graça obtida pela oração, é capaz de nos retirar das amarras do pecado e nos curar para uma nova vida. Esforço +  Graça obtida pela oração! Não somente um, nem apenas o outro!

Rezar para vencer as tentações

São João Crisóstomo fez a seguinte afirmação a respeito da oração: “Nada se compara em valor à oração; ela torna possível o que é impossível, fácil o que é difícil. É impossível que caia em pecado o homem que reza”.

Por meio da oração nós participamos da intimidade da Santíssima Trindade e o Santo Espírito passa a nos unir ao próprio Cristo: “se não nos deixarmos levar pelo Espírito, cairemos de novo na escravidão do pecado” (CIC, 2744). E o que mais anseia o inimigo de Deus? Que estejamos longe de Cristo, mergulhados nas trevas do pecado. Como afirmou São João da Cruz, “o demônio teme a alma unida a Deus como ao próprio Deus”. Note que, infelizmente, é muito comum a muitos homens viverem longos anos sem buscarem a confissão e em estado de pecado mortal. Pode ser essa a sua situação hoje. Chegou a hora de tomar uma atitude, seja homem!

Contando apenas com a nossa débil natureza corrompida, sucumbiremos, repetidamente, experimentando os mesmos pecados, como porcos a celebrarem a lama. Somente com o apoio da graça, obtida pela vida de oração e sacramentos, avançaremos, passo a passo, rumo à perfeição cristã.

Sem oração — sem muita oração — é impossível chegar à santidade” (Marín, p. 299).

Permanecer em estado de graça é a batalha de cada dia e só será conquistada pela oração. Não por planos engenhosos, por ideias e táticas para não sermos enganados pelo demônio. Tudo isso é válido, desde que nutrido por uma vida de oração fecunda.

Rezar para ser homem de verdade

Não é possível ser homem de verdade sem ter uma vida de oração. O chamado à oferta de si, em sacrifício pelos outros (Deus, filhos, esposa, irmãos, ideais, valores etc.), não pode ser correspondido por vias naturais; é somente pela graça e pelo Espírito que um homem tem condições, de, dia após dia, dar a própria vida, no martírio silencioso e sustentado pela caridade divina.

É na vida de oração que o homem consegue perceber a transcendência de cada situação cotidiana que lhe exige pequenas mortes. Reconhecê-las e, sobretudo, acolhê-las, como meio de santificação: a vivência das esperas, a enfermidade de um filho, a pobreza, os fracassos, as renúncias, a solidão, a incompreensão, as dúvidas… Em qualquer estado de vida, sem a oração, a dor do homem o paralisa na miséria da cruz; não a transcende, alcançando a ressurreição.

Oração e vida cristã são inseparáveis, pois se trata do mesmo mesmo amor e da mesma renúncia que procede do amor. Trata-se da mesma conformidade filial e amorosa ao plano de Amor do Pai; da mesma união transformadora no Espírito Santo, a qual nos conforma sempre mais a Cristo Jesus; trata-se do mesmo amor por todos os homens, aquele amor com que Jesus nos amou” (CIC, 2745).      

 

Como rezar?

Quem não achar mestre que lhe ensine a orar, tome este glorioso Santo por mestre, e não errará no caminho” (Santa Teresa D’Ávila, sobre São José).

Quem mais do que Santa Teresa para nos indicar um mestre na vida interior? São José, apesar de não possuir nenhuma fala relatada nos Evangelhos, é dono de um silêncio eloquente, que brota da sua intimidade com Deus.

Sua pronta e ágil resposta à Divina Vontade garantiram a proteção da Santíssima Virgem e de Nosso Senhor Jesus Cristo. Sua ardente caridade, fruto de sua conformidade ao Plano de Salvação, faz transcender seu trabalho cotidiano, suas dores e sofrimentos, levando-o a trilhar o caminho da castidade e da perfeição.

Qual é o segredo de São José? Colocar a vontade de Deus como centro,  mais importante até mesmo do que a própria vida. “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5).

Quais são as suas prioridades? O que ocupa o lugar central de sua vida?

A oração é um dom, é uma busca. Como dom, deve ser pedido a Deus, como busca, é fruto de nosso esforço e constância. Portanto, peça a graça de ser um homem de oração e, ao mesmo tempo, lute; esteja disposto, como homem, a combater esse bom combate:

  • escolha uma hora adequada, e reserve-a para sua oração de todos os dias;
  • prepare um local silencioso e discreto;
  • peça a graça de Deus;
  • esforce-se e persevere, mesmo na aridez.

Lembre-se que “não se ganha nenhuma batalha sem oração” (São Pio de Pietrelcina).

 

Bravus,

pela hombridade.

 

Referências:

CIC — Catecismo da Igreja Católica.

MARÍN, A.R. Ser ou não ser santo… eis a questão. Compêndio da Obra: Teologia de la perfección cristiana. Campinas, Ecclesiae. 2016.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: